CEDO
Chegaste
E era cedo.
E foi fácil perceber
A serenidade, a brotar da eternidade, num ensejo muito raro
- um halo claro -,
Que se espalhava em teu redor como uma coroa fina,
De mulher sempre menina,
Feita de muitas vontades, num brando vapor, envolta em neblina…
Partilhaste
E era cedo.
O que de melhor tinhas (nem ao certo se sabia de onde vinhas),
Deste aos outros.
Nada quiseste para ti: nem a nossa gratidão (não pudemos dizer-ta),
Nem a nossa compaixão (tivemos a que já não viste).
Na nossa ignorância – é triste -, não interpretamos o alerta.
Saíste…
E era cedo.
Ignoraste,
E era cedo,
O mal que te corrompia o corpo por dentro,
Era cedo,
Que se alastrou até ao teu centro (o centro de ti), que te tirou a voz, a suave voz com que falavas, que te levou num vapor quase tão invisível como aquele que te havia trazido até nós.
E era cedo. Era cedo.
Partiste
E era cedo.
Sem avisar, porque já nada mais podias fazer pelos outros.
Sem avisar, porque tu não importavas, só os outros.
Sem avisar, com a serenidade que te levou embora,
Com uma borboleta no cabelo, sem mais demora – a demora que nós queríamos, ainda, de ti.
Partiste. E era cedo.
Descansa em paz.
Anabela Borges, professora, (texto e ilustração: “Voa, Anjo”, óleo/pastel sobre papel manteiga)
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CEDO é um poema repleto de beleza e emoção, uma homenagem singular em memória da nossa colega Alice.
Bem-haja Anabela.